Há alguns anos estava eu brincando de casinha, com minhas bonecas, e as pequenas xícaras de porcelana que minha mãe me emprestou especialmente naquele dia, quando minha madrinha chegou à nossa casa para visitá-la.
Estavam eufóricas, conversavam e riam alto como se estivessem sozinhas, tanto que ouvi minha mãe dizer «comadre estou grávida!» E o resto da tarde a conversa das duas foi em torno desse assunto. Coisas do tipo se meu pai já sabia, de quanto tempo era a gestação, se já tinha me falado da novidade.
Sim, porque esse era um assunto muito sério, afinal até então eu era a única filha do casal. Mais do que isso, era considerada um milagre divino, uma vez que sete anos antes, quando minha mãe perdeu um bebê que nascera menino, com oito meses, o médico que a atendeu foi taxativo ao dizer ao meu meu pai, que a esposa dele jamais poderia ter filhos.
Meus pais, não sei se pelo choque sofrido pela perda do seu primeiro filho, acreditaram tanto no diagnóstico desse médico que jamais consultaram outro para ao menos tirar uma dúvida sequer a respeito do assunto. Meses mais tarde, resolveram adotar uma menina, àqual deram nome de Lúcia. Se a criança adotada fosse menino, chamaria-se Lúcio em homenagem ao meu avô paterno . Enfim, por diversos motivos, alguns até previsíveis, optaram pela adoção de uma menina.
Passsado sete anos após todo esse acontecido, minha mãe deu a luz a uma menina de sete meses, eu. Hoje certamente esse médico seria mais do que questionado. Mas aqueles eram outros tempos, e tudo se passou numa cidade do interior em que uma palavra proferida por um médico em diagnóstico, era um vaticínio! Nasci numa noite gelada de quarta-feira no mês de Julho faltando uma hora e meia para a chegada do dia a seguir. Imediatamente fui carregada para a encubadora, e lá permaneci por por dois meses, dado ser muito fraquinha e correr o risco de não sobreviver. Soube mais tarde que minha mãe sofreu muito por não ter podido me amamentar, cresci guacha, como se diz na minha terra das crianças que crescem tomando leite na mamadeira.
Isso se não for, ao menos parece intrigante, porque mais uma vez, numa noite de Abril, para ser mais exata dia 10, e quase sete anos depois, veio ao mundo minha irmã. A caçulinha! Essa da qual minha mãe estava a falar à sua comadre, no início da conversa. Nasceu não só no tempo certo, após nove meses de gestação, como em perfeita saúde.
Na noite do nascimento da minha irmã, meu pai fez o maior suspense comigo, pois a mãe havia sido hospitalizada com aquele barrigão, e no outro dia prometeu me levar cedo ao hospital ver o novo neném da casa. Aliás, foi ele quem me preparou ao seu modo claro, para a chegada de minha irmãzinha.
Brincava comigo dizendo que eu ia perder o colo, que agora o pai tinha que ajudar a ninar o neném… E eu mimada como era, fazia beicinho de ciúmes.
Mas logo em seguida, ele me pegava no colo e andava comigo agarrada ao seu pescoço por toda a nossa propriedade, me mostando as frutas do pomar, a horta, coisas que ele havia plantado e se transformaram em fruto. Os animais no curral, os bezerrinhos que ainda não haviam sido desmamados .Era sua forma simplória de me explicar o fluxo natural da vida, os mistérios que ele em palavras, devido ao seu jeito simples de ser, não conseguia me fazer entender em tão tenra idade.
Na manhã seguinte ao nascimento da da minha maninha, meu pai cumpriu o prometido e me levou ao ao hospital onde minha mãe se encontrava, para ver a novidade, o bebê recém nascido.
Quando adentramos o quarto, minha mãe a tinha em seus braços, estava toda enrolada numa manta amarelinha de lã feita de croché e ornamentada por aplicações de rosinhas.Sorridente, minha mãe me chamava para ver minha irmã.
Com a ajuda de meu pai, pude vê-la bem de pertinho, e quando a vi, pensei que eu tinha ganhado uma boneca de verdade. Era uma coisinha pequenina, que mal dava dava para ver o rosto.De imediato constatei que os olhos eram castanhos e grandes, se mexiam como se ela alguma coisa já enxergasse, emitia uns grunhidos e minha mãe dizia ser fome.
E assim estavam as duas naquela luta que nós mulheres sabemos. O bebê com fome, mas sem força para mamar, e a mãe quase que desesperada para dar-lhe o peito a mamar. Parece que chegaram a um conscenso, pois essa filha foi a única que lhe deu a alegria de ser amamentada por ela.
Hoje aquele bebê do qual minha mãe falava da gravidez com minha madrinha no início dessa prosa, e que por muito tempo me pareceu uma boneca de verdade, cresceu e está completando mais um aninho de vida!
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