Eram cinco horas e trinta e cinco minutos de uma madrugada fria do mês de julho quando a morte da minha mãe foi anunciada pelo médico de plantão do hospital da cidade. Mal sabia eu que após aquela madrugada, as outras que a sucederiam nunca mais seriam as mesmas em que eu apenas tranquilamente dormia.
Acordei assustada pela movimentação que havia no quarto pouco antes do médico de plantão chegar. Adormecera algumas horas antes na cama sobressalente que ficava ao lado do leito em que minha mãe se encontrava.
Meu pai veio logo em meu socorro, tomou-me em seus braços e assim posso dizer que assisti ao desfecho daquela situação como, e com gente grande. Ainda lembro dos últimos minutos de vida que lhe restaram, foi a coisa mais dramática que vi até hoje e não menos assustadora, dado o contexto da situação. Isso deu-se não só pelo desespero dos que lá estavam, mas pelo longo processo de agonia pelo qual minha mãe passou em seu leito de morte.
Estava como que tendo um ataque de asma, doença que sofria há anos, e por isso demorei para compreender o que realmente estava acontecendo naquela madrugada em que infelizmente acordei antecipadamente. Faltava-lhe o ar, tinha muita sede, pedia que lhe dessem água à qual jamais viria a beber.
Ainda não tinha perdido a consciência, aliás lutou pela vida
até o último segundo que dela lhe restava.
Olhava para meu pai e para mim, como que se estivesse fazendo um pedido, e estava reiteradamente pedindo a ele que tomasse conta de suas filhas principalmente de mim.
Isso posso afirmar com certeza porque ela ao despedir-se de mim e de minha irmã, no domingo que antecedeu àquela madrugada de terça-feira, fizera-o entre abraços e lágrimas intermináveis, e recomendava-me muito a meu pai. Sabia pelo forte instinto maternal que a caractetizava, que eu, por ser mais crescida teria maiores dificuldades de adaptação às mudanças que de fato ocorreriam em nossas vidas, causada pela sua ausência em comparação com a outra filha que deixava, um bebê de três meses.
Desde que me conheci por gente a vi angustiada, antes disso talvez a tenha sentido angustiada, e coube a mim, também presenciar sua morte angustiada. Tenho para mim que essa era a minha sina, e por assim dizer, a dela também. Acredito que o fato de estarmos uma na vida da outra por tão curto espaço de tempo, porém um tempo profundo e intenso, foi para que o destino dela se cumprisse, uma vez que aqui continuo, seguindo em direção ao meu.
Ainda pedia água de maneira insistente, davam-lhe, mas a dificuldade para beber aumentava a cada instante. Meu pai não sabia mais o que fazer, estava emocionalmente preso entre um simultâneo estado de choque e pânico. Sensação esta que no meu entender, nunca o abandonou de todo ao longo de sua existência. Pediu às enfermeiras que fizessem-lhe um chá com ameixas-secas, do qual minha mãe tanto gostava mas nem mesmo esse ela conseguia engolir.
Passado mais alguns minutos , finalmente a morte silenciou-lhe a vida de uma vez para sempre. Assim minha mãe nos deixou, órfãos de sua presença em nossas vidas.
Aproximou-se da cama onde o corpo dela se encontrava ainda comigo em seus braços, e com os olhos marejados de lágrimas e a voz trêmula disse-me que a minha mãe tinha morrido. Acredito que o fez mais para convencer a si próprio daquela dura e triste realidade, do que para me dar conhecimento do fato em si.
Em seguida vieram as enfermeiras para tratar dos procedimentos finais, enquanto outros se retiravam porque nada mais lá restava para fazer. Foi quando eu, agarrada ao pescoço de meu pai, sussurei-lhe ao ouvido que temia ver minha mãe ser colocada dentro de um caixão de defuntos, e ao mesmo tempo pedi que me deixasse ir para casa junto com o pastor da igreja que já estava de saída. Mesmo com uma certa hesitação ele conssentiu que eu dali saísse pela primeira vez sem a companhia nem do pai, nem da mãe.
A partir desse momento, lembro de eu seguir andando atrás do pastor, que por sua vez não me dirigiu uma palavra sequer. A madrugada permanecia escura e gelada. Além daquele silêncio tétrico, apenas se ouvia o som emitido pelo contato dos meus tamanquinhos de madeira junto aos paralelepípedos que cobriam a rua por onde andávamos.
E assim chegamos à casa da vizinha que até então estivera tomando conta da minha irmã pequenina. Quando ao abrir a porta da casa nos viu, me fez entrar como se à minha espera já estivesse, naquela fria madrugada de julho.
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