Assim que completara dezesseis anos de idade, Helena foi levada pelo pai a uma hospedaria, um tipo de hotel que havia no lugar em que viviam e único, num raio de trinta quilômetros, para ajudar nas lidas da cozinha, limpeza e no mais que a patroa mandasse. Em troca ganhava comida, alguma roupa usada que vinha das filhas dos donos e aprenderia a ler e escrever.
Quando a mãe foi dar a notícia de sua mudança temporária, tentou argumentar dizendo que preferia não sair de perto dela, e que a tia constância poderia ensinar-lhe o abecedário e a tabuada. No entanto, a mãe respondeu convicta que não era oportuno contrariar a decisão do pai, uma vez que tinha se empenhado em conseguir que ela fosse para esse lugar muito respeitado e de renome, para aprender a conviver fora do âmbito familiar. E, quem sabe, com muita sorte vir a casar-se com alguém que pudesse lhe dar um futuro melhor que ele, o pai, podia lhe oferecer.
Chorou em silêncio e às escondidas durante toda àquela semana que antecedia sua mudança. Era de uma natureza silenciosa, resignada, por vezes parecia ser fria porque não expunha seus sentimentos. Diziam dela alguém difícil de se deixar conhecer profundamente, dado seu modo calado e arisco de ser. Mas saíra à avó paterna, essa certeza tinha o pai e por isso, mais ela o preocupava ao ponto de ele tomar àquela decisão.
Sairam logo de manhãzinha para não serem castigados pelo sol escaldante da tarde. tinham muito chão pela frente, a hospedaria ficava a mais ou menos quinze quilômetros e fariam o trajeto a pé. O pai calculava umas seis horas de caminhada, com sorte chegariam na hora do almoço.
Helena trazia um saco com duas mudas de roupas, uma para usar no trabalho, e a outra um pouco melhor para o caso de ir à igreja aos domingos. Uma agulha de crochê de madeira que o pai lhe fizera quando tinha 10 anos, e por isso estava mais escura e escorregadia, o que facilitava a ela fazer crochê. Dois rolos de plástico cortado em tiras, como se fossem linhas, para que pudesse confeccionar seus tapetes de plástico nas horas em que não tivesse trabalho a fazer. Um caixa de pó de arroz da marca cahemere bouquet que ganhara de aniversário quando fez 15 anos da tia Constância, a que sabia ler e escrever. O único calçado que levava eram as chinelas havaianas que tinha calçado nos pés. As congas azul e branca do inverno passado, queimaram-se no forno do fogão á lenha numa tentativa se as fazerem secar mais depressa, depois de um dia de inverno chuvoso.
Seguiam num ritmo acelerado, o pai dois passos á frente dela porque ele sabia o caminho e também para não terem nenhum tipo de conversa, pois não era hora pra isso embora nenhum dos dois fossem dados à grandes conversações. Chegaram por volta do meio dia e meia.
Ele mandou que ela esperasse embaixo no cinamomo, árvore frondosa e por isso mesmo sombreira, que ficava ao lado da casa, enquanto ele fosse avisar a Osorinda, empregada há anos ali, que haviam chegado.
Ouviu o pai cumprimentar e dizer: - Trouxe a menina! Ao que a outra respondeu:
- Vamos entrando. Ele voltando-se pra ela, fez um gesto com a cabeça para que viesse.
- Vamos entrando. Ele voltando-se pra ela, fez um gesto com a cabeça para que viesse.
Trocaram meia dúzia de palavras e logo foram almoçar, tinham chegado a tempo disse a empregada. Notou esta, que a menina mal tocava na comida e que tinha a cabeça sempre baixa. Comentou: - Mas ela tá muito tristinha!
O pai apressou-se a dizer à empregada que não fizesse caso daquilo, pois ela era muito tímida, nunca tinha saído de casa, de perto da mãe e tinha vergonha de comer na frente de estranhos. E arrematou dizendo. - Mas ela logo se acostuma. E olhou pra filha buscando aprovação para o que dizia a seu respeito. Entretanto, ela continuava com o olhar fixo no prato sobre a mesa, despretenciosamente.
Às quatro da tarde tudo já estava acertado com os donos da casa e o pai veio até à cozinha para se despedir de Helena. Disse-lhe que estava em boas mãos, recomendou que não fizesse nada de errado.O que significava dizer que obedecesse e respeitasse os patrões, a D. Osorinda, não desse confiança pra estranhos, sobretudo que não falasse com rapazes.
Prometeu voltar dali a um mês para levá-la à casa ver a mãe e os irmãos. Porém em seu íntimo sabia não poder cumprir o que dissera à filha, ao menos no espaço de um mês. Retornaria sim, caso a família o chamasse alegando que ela não servia para o trabalho, ou qualquer outro motivo de desagrado em relação ao comportamento dela.
O pai então pediu que ela viesse lhe dizer adeus, pois tinha que ir andando, do contrário chegaria à casa já noite cerrada. Ela aproximou-se, mas dessa vez olhou-o na cara, estendeu a mão e pediu-lhe a benção, como fora acostumada desde pequena. Ao que ele respondeu: - Deus te abençoe minha filha! Assim foi o modo que o pai despediu-se da sua filha Helena e partiu.
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