terça-feira, 21 de junho de 2011

Um encontro inusitado‏

Disse a minha mulher que iríamos jantar num restaurante simples de todo. Porém que as refeições ali servidas eram muito bem preparadas, pois fora assim há sete anos quando vivi por uns tempos naquela cidade que agora o destino me designara mais uma vez para que eu desempenhar minha função de médico de família.

Quanto ao jantar ela não discordou, ao contrário, até o elogiou. No entanto em relação ao ambiente fez algumas considerações desfavoráveis, reiterando que por cautela viéssemos para ali cedo da noite. Percebi que aquela conversa era devido ao fato de haver alguns senhores apinhados ao balcão com copos e cigarros nas mãos uma vez era suposto o tabaco ser proibido em cafés e restaurantes.

já havíamos acabado o jantar e estava à procura do garçon para pedir a conta, quando vi junto ao balcão do bar restaurante um sujeito de cara muito familiar.
Assim que nos olhamos abriu-me um largo sorriso vindo de imediato em minha direção.
Passado alguns minutos já havíamos nos identificados um ao outro e viemos a descobrir que ambos iríamos atuar juntos no mesmo Centro de Saúde ao menos duas vezes na semana.

O colega convidou-nos a sentar numa outra mesa para com ele beber um copo, fazia questão de nos oferecer. Hesitei por estar acompanhado como é evidente, mas não tive outra opção que não fosse aceitar.

Sentamos os dois como velhos amigos saudosos que se reencontram. Veio um, copo e mais alguns outros, cigarros para dar mais vazão a nossos espíritos desejosos de expressarem-se sobrepondo uns sobre os outros de forma desordenada e ansiosa.

Disse-me ele ter atuado em vários seguimentos no campo da saúde, como o fato de ter sido médico de uma seleção feminina de andebol, das viagens que por conta disso se beneficiara e ao mesmo tempo piscando-me um olho, "dos contactos" que dali advieram. Estava já com sessenta anos até ali bem vividos, dizia ele com orgulho.

Tanto por ele como por mim de certeza que estaríamos mais tempo juntos, uma vez que assuntos não nos faltavam. No entanto, como era sabido, eu estava acompanhado da minha mulher que vez por outra me olhava como que suplicando para que retornassemos à casa. Tratei de assim o fazer o mais breve que pude, despedimo-nos eu e meu amigo promentendo continuar nossa agradável conversa assim que nos reencontrássemos, no trabalho.

Durante o trajeto de retorno à casa continuei a falar e reiterar alguns assuntos daquela noite com minha mulher, sentia-me com os ânimos alterados, mas feliz com aquele encontro inusitado.

Numa das vezes sem conta em que tornei a falar o quanto a sorte havia sorrido para esse meu amigo, minha mulher disse-me algo que mesmo no meu estado de espírito não poderia desconsiderar. «se toda essa felicidade que disse ele sentir for verdadeira, qual a necessidade de ter tornado-se um alcóolico irreversível, gabando-se de ter sido um garanhão sendo ele casado e pai de família, num bar de segunda categoria?»
Não tive resposta para tamanho questionamento, limitando-me a ficar calado.

Meses mais tarde vim a saber que um ano antes daquele encontro, haviam diagnosticado leucemia no rapaz filho desse meu colega. E que ele após ter percorrido vários países da Europa, nomeadamente a Rússia, também na América do Norte em busca da cura,mas retornando sem nenhuma solução, decidiu tratar ele mesmo e curar o filho. No entanto nunca disse a ninguém em que se baseava tal tratamento no qual soube-se jamais ter obtido sucesso.

No dia em que nos avistamos no tal restaurante tudo isso já havia se passado, porém com um agravante a mais: O filho tornara-se viciado em cocaína por opção, nesse caso de morte e não de vida. e por consequência passara a roubar e agredir fisicamente os pais.

Considerei que talvez naquele lugar simples, meu amigo após entornar uns copos de whiskys, revivia seu passado nostálgico tornando-se um homem viril, um pai herói e dono de uma vida afortunada.

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